Mulher decide mudar de vida após anos com 130kg
“Uma vez, sentada na praia com meu filho, passou dois moleques, que aparentavam ter uns 20 anos, e eu escutei eles falando assim: olha a Raspútia”, conta a depiladora Katia Raquel de Lima dos Santos. Uma mulher de 46 anos, que um dia foi acima do peso, comparada à época a personagem de (des)proporções corporais extremamente exuberantes, interpretada pelo ator Eddie Murphy.
Kátia trabalha há aproximadamente 28 anos no ramo estético, lidando diretamente com corpos de diferentes tipos, tamanhos e gêneros. O papel de depiladora, para muitos, se tornou muito mais do que isso, ouvia de clientes que “em vez de pagar psicóloga, preferia pagar a depilação”, conta em tom de brincadeira.
A moça trabalhou a maioria de sua trajetória com sobrepeso. Sentia cansaço, trabalhava muito e com dores, colocava o serviço à frente de tudo. Passava horas sem se alimentar, inúmeras vezes apenas com um copo d’água em seu estômago que implorava por comidas sólidas, e quando comia, comia de tudo. Saiu de 60kg para 130kg sem perceber. “As coisas acontecem tão lentas e tão devagar, que a gente só percebe depois que passa do limite”.
Sentava na pontinha da cadeira em formato de poltronas com braços para evitar o constrangimento de ficar entalada, se equilibrava nas próprias pernas sabe se lá por quanto tempo. Foi obrigada a ouvir de um trabalhador na praia para sentar em uma cadeira mais larga, sugerindo que fosse mais “confortável”. “Como quem diz ‘você vai quebrar essa cadeira’”, diz ela lembrando que a voz embargada denúncia. “Dói isso, a gente sente”, reforça.
Kátia diz que olhares e comentários de julgamento já fizeram parte da sua rotina. Mesmo que em tons de brincadeira, como mulher e como um pessoa gorda, seu corpo, sua aparência e suas roupas eram sempre colocadas a prova. “Ah, você é tão bonitinha, deveria emagrecer um pouco” ou “tão bonita de rosto, por que não emagrece?”.
A coluna e os joelhos, segundo ela, pediam por socorro com a carga diária do seu corpo de 130kg. A mulher conta ainda que seu sobrepeso e o uso recorrente de anticoncepcional a fizeram desenvolver trombose na cabeça. Os sintomas eram vistas embaçada e nublada, uma dor de cabeça forte, que não passava. Foram seis meses de luta contra o coágulo sanguíneo cerebral, com alta dosagem de remédio, correndo sérios riscos de vida. Isso tudo, durante o auge da pandemia de Covid-19.
Conta com ar de revolta que ouviu dos próprios profissionais de Medicina que não era gorda o suficiente para fazer a cirurgia — a bariátrica. Era considerada uma “gordinha saudável”, por conseguir fazer “normalmente” as tarefas do dia a dia e não ter doenças mais graves relacionadas ao sobrepeso, como se obrigatoriamente precisasse ter hipertensão, diabete, problemas no fígado e no coração para conseguir se tratar, recorda ela.
Até que na segunda tentativa, após mudança de plano de saúde, ela foi apresentada a médicos mais preparados e conseguiu seguir com o processo para realizar a cirurgia. Kátia diz que era hora de dar fim às dores nas articulações, conseguir andar de bicicleta e deixar o medo de lado ao pegar carona em motos. “Pensava que o veículo poderia não aguentar o meu peso”.
“Quando a gente começa a se enxergar com a situação onde ela realmente é verdade, ela começa a mudar”. Quebrar o ciclo da família em que 90% dos membros tem sobrepeso ou pré-disposição, prospectar uma vida mais saudável, tornar realidade o sonho de não receber mais olhares tortos da sociedade perante ao seu excesso de peso, estava cada dia mais próximo de ser real.
A moça conta que nunca deixou de fazer o que gostava, sempre se considerou rueira, como se autointitula. Dava a cara a tapa todo dia: saia para trabalhar, andava pelas ruas com a roupa que se sentisse confortável, ia à praia, piscina, demais lugares públicos, e nunca deixou de fazer o que gostava, mesmo com seu corpo sendo colocado em debate o tempo todo.
A bariátrica, realizada no dia 26 de maio de 2021, a deu um novo começo. Kátia Raquel tornou-se uma mulher mais forte, desta vez ainda mais preparada para enfrentar o mundo de outro ponto de vista e tonifica, “você não vai ser boa suficiente pra ninguém, você tem que se sentir suficiente pra você”.
Ela não usa o termo “ex-gorda”, prefere falar que é “bariátrica”. Sua ficha demorou para cair, segundo ela, foram quase 6 meses para notar a diferença depois da cirurgia, mesmo com todos ao seu redor falando que sua aparência tinha mudado.
A moça segue contando os dias para fazer a operação reparadora de pele e comenta sobre ser inspiração para outras pessoas. “Depois que operei, pelo menos 5 ou 6 pessoas também foram estimuladas para mudarem suas histórias”. Fazer a bariátrica é mais do que um processo estético, só de pensar no tanto de qualidade de vida e saúde que ganhou, ela faria tudo de novo.
“Nunca deixe de fazer nada, faça sempre para te agradar e não agradar os outros”. Kátia Raquel, comenta que não tem vergonha do modo que seu corpo está agora - pós bariátrica -, mesmo cheio de flacidez e estrias, aprendeu a se reconhecer e está se amando e ratifica, “as coisas ainda vão melhorar muito mais”.


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