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Com a Batalha do Caoz, Ganjão faz do hip hop uma cultura mais inclusiva

22 de nov. de 2023
4 min de leitura

Um movimento relativamente novo, com 50 anos de existência, constituído na periferia negra. Uma expressão artística que nasceu a partir da violência policial, disputa e luta por territórios. A cultura do Hip Hop foi disseminada para o mundo como forma de protesto e movimento político, dando voz aos homens pretos e suburbanos, onde o público decidia, através da batalha de dança e rima, quem iria dominar o território.

“O hip hop pode ser um movimento de minorias, mas, ainda sim, um ambiente machista, cisgênero e normativo”, afirma João Pedro Tavares, também conhecido como Ganjão. MC, artista independente, suburbano, um dos fundadores da Batalha do Caoz e homem transgênero. A Batalha do Caoz é um coletivo criado em São Vicente, focado em promover batalhas de conhecimento para minorias, mulheres e LGBTs, “aberto a qualquer um que tenha vontade de se expressar”, define Tavares. Em meio à sua batalha pelo autoconhecimento, ele sofreu ataques machistas, enquanto ainda não se entendia como pessoa trans, que o forçaram a se colocar em um espaço masculino. Por muito tempo, João Pedro Tavares ouviu de familiares termos como “senta igual menina”, “mulher não faz isso ou aquilo”. Em 2017, aos 17 anos, foi expulso de casa pela mãe e precisou se fortalecer sozinho para reconquistar o respeito da família. No mesmo ano, mudou-se para São Paulo, pois sabia que as questões de gênero iriam melhorar por lá. Teve apoio de pessoas trans que o ajudaram com médicos, psicólogo e terapia hormonal, profissionais adequados para iniciar o processo de transição. Foi nessa época, ainda na Capital, que conheceu a Batalha da Dominação, um espaço destinado à batalha de conhecimento voltada para mulheres, trans masculinos e não binários, sua principal influência para a criação da Batalha do Caoz e um dos ambientes que possibilitou o seu amadurecimento e desenvolvimento pessoal. “Tenho a minha família de sangue e a minha família de rua”, conta.  


Ele diz que não chegou a morar na rua, porque sempre teve apoio de amizades e pessoas trans. Em uma de suas idas para São Paulo, com a cara e a coragem, como conta, estava com dinheiro suficiente apenas para a ida. Dormiu na rua, e na Batalha da Dominação conseguiu acolhimento. “Fizeram uma ‘vaquinha’ para que eu conseguisse voltar para casa”, relembra. João Pedro Tavares havia terminado o ensino médio, e trabalhava, fazia curso técnico, estagiava, tinha uma casa para cuidar e levar comida, e a vida ficou mais puxada. O pouco de dinheiro que entrava, guardava para poder prosseguir com a hormonização e arcar com os custos básicos de alimentação. Por um breve período precisou pausar os estudos, mas em 2022 se formou técnico de Nutrição e Dietética, profissão que exerce hoje. Por volta dos 13 anos, época em que as batalhas de rima estavam no ápice, João Pedro Tavares resolveu “se jogar”, relata. Desde os 10 anos, o jovem conta o seu interesse pela poesia e pela Música Popular Brasileira. Na mesma época, escreveu o seu primeiro som como um desabafo espontâneo para a mãe, após uma pequena discussão entre os dois. 

Foi na Praça do H, no Humaitá, em São Vicente, onde começou a rimar com outros garotos, sem compromisso. Toda semana estava em uma batalha. Em 2015, no Bar do Tonhão, em Santos, venceu a sua primeira batalha na famosa Batalha do Tonhão. Como prêmio, levou um pão de alho e a oportunidade de ocupar o espaço da Batalha do Tonhão com a apresentação de um pocket show. Preparou quatro músicas autorais para a ocasião e, desde então, não parou mais.


João Pedro Tavares, antes da sua transição vivenciou a invisibilidade e o desrespeito com as mulheres nesse ambiente. “Sempre acham que uma menina ganha por militância, não porque foi boa de verdade. As minas cantam e as pessoas não dão atenção. Agora, se um cara cantar ‘arroz, feijão e macarrão’, ganha milhares de views”.


Em uma batalha na Náutica, em São Vicente, convidado por Meduza, uma das futuras fundadoras da Batalha do Caoz, João foi menosprezado por uma criança de 8 anos. “O menino começou a me xingar, falar da minha família, da minha roupa, do meu estilo, do meu cabelo. Eu não esperava aquilo vindo de uma criança. Falar coisas descabidas para o momento”, conta com a voz embargada. Naquele dia, ele saiu da batalha chorando.


Alguns dias depois, João Pedro Tavares e Meduza decidiram mudar o cenário do hip hop na Baixada. Se juntaram para promover a primeira Batalha do Caoz, em 1º de dezembro de 2017. “O objetivo era termos um espaço onde não fossem subjugados; rimar de boa, fazer o nosso rap. Prezar pelo bem-estar de quem está rimando, sem violência”, conta.


Ganjão, como é conhecido na cena do hip hop, conta que, no começo, o Caoz era diferente. “Era pra fazer a gente se sentir bem, e com o tempo vimos o pessoal abrindo a mente, se pertencendo àquele espaço, falar sem medo e se sentir seguro”.


Ao mesmo tempo em que acredita poder alcançar algo para o futuro, também sente muita ansiedade por não se encaixar no espectro social dito como normal. Deseja o básico, ou seja, família, casa, trabalho, carro e comida na mesa. “Viver da minha arte é o objetivo. Num futuro próximo, me vejo conquistando esse apreço pessoal. Sei que como MC preciso fazer algo pelo meu produto, me cobro, quero números, quero ter material para vender.


Atualmente ele é um dos artistas da Causa: Arte e Desenvolvimento, um escritório artístico e de carreiras localizado em Praia Grande, responsável pelo planejamento estratégico e a produção de seu primeiro EP. “É difícil dar vazão ao trabalho artístico com a CLT ocupando tanto espaço na minha vida, mas tenho fé que a arte vai chegar em mais lugares, atingir mais pessoas”.


O Caoz, que “começou como uma brisa e agora tomou proporções enormes”, segundo ele, crescerá ainda mais, lado a lado com o seu progresso como artista, junto aos demais organizadores da batalha. “Se eu não botar fé no Caoz, não boto fé em mim mesmo” . 


 
 
 

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